A Associação Brasileira de Harmonização Orofacial (Abrahof) orienta sobre a utilização, enquanto a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) aponta os riscos.

Após um estudo italiano realizado por pesquisadores de Turim sugerir que a vitamina D seria capaz de diminuir as chances de um paciente desenvolver infecções respiratórias, dentre elas o novo coronavírus e reduzir os efeitos da Covid-19, sociedades médicas brasileiras adotaram diferentes posicionamentos. De um lado, a Associação Brasileira de Harmonização Orofacial (Abrahof), defende a suplementação, inclusive prescrevendo dosagens necessárias para aumentar a imunidade do organismo. Do outro, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem) manifesta repúdio e orienta a sociedade em relação aos riscos do uso dessa “medicação”.

De acordo com a pesquisa italiana, divulgada no fim de março, a capacidade da vitamina D de regulação do sistema imunológico já foi comprovada na prática em outras ocasiões, e além de impedir o avanço de quadros de infecção respiratória, como os causados pela Covid-19, a substância também teria a capacidade de combater danos causados por inflamações de origem viral, incluindo o novo coronavírus.

Segundo o estudo, “dados preliminares coletados por alguns dias em Turim indicam que os pacientes com Covid-19 apresentam uma prevalência alta de deficiência de vitamina D”. A vitamina D está presente nos raios ultravioletas do tipo B e em uma série de alimentos. Na Itália, onde foi feita a pesquisa, a falta dessa substância afeta grande parte das pessoas, especialmente os idosos.

O cirurgião dentista e presidente da Abrahof, Mario Silveira, explica que a vitamina D, na verdade, é um hormônio “coringa”, porque tem inúmeras funções e influencia mais de 4.000 genes no organismo. Ele esclarece, porém, que ter níveis adequados de vitamina D pode ajudar a barrar o agravamento da doença, entretanto, não é capaz de impedir que alguém seja infectado pela Covid-19, porque não é uma vacina. “A maioria de nós vai ter que passar por esse vírus. Só assim a gente trata uma pandemia. Somente após 70% da população passar pelo vírus a gente pode dizer que isso já está controlado”, diz.

Por isso, segundo Silveira, é importante que cada pessoa se preocupe com as condições do seu sistema imunológico.”A gente precisa reforçar sim a nossa imunidade natural para que a gente consiga passar pelo vírus sem uma gravidade maior”, afirma.

Em nota, a Abrahof, recomenda à sociedade em geral, o uso de 10.000 Unidades Internacionais (is), ou 250 microgramas (mcg), de vitamina D ao dia. Já para os profissionais da saúde, que estão na linha de frente do combate ao coronavírus, o uso de 600 mil Unidades Internacionais (is), ou 15 mg, de vitamina D como uma primeira “dose de ataque” e posterior manutenção com 10 mil Unidades Internacionais (is) ao dia.

De acordo com Silveira, em relação a decisão de prescrever essas dosagens, a nota foi elaborada com o consentimento do conselho científico e da diretoria da Abrahof, de forma consciente em relação a esses valores, e são consideradas doses benéficas para população neste momento.

“Nós sabemos hoje que 10 mil is por dia não é uma dose tóxica. Isso está comprovado já cientificamente, e quando fala em 10 mil is assusta, mas assusta porque é a medida da potência do produto. Se agente for converter essas 10 mil is para miligramas, seriam 0,25 miligramas. Já essa dose 600 mil is para uma dose de ataque para os profissionais que vão para o ‘front’, cujo objetivo é elevar rapidamente os níveis de vitamina D seriam 15 miligramas apenas”, explica.

Além disso, segundo o presidente da Abrahof, não se trata de um medicamento de uso contínuo. “Ao final da nota, deixamos bem claro que após quatro a seis meses, o paciente deve-se procurar então um profissional médico que possa orientar em relação a manutenção, a redução ou a suspensão dessa vitamina”, afirma Silveira.

Impasse. Porém, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, através de seu Departamento de Metabolismo Ósseo e Mineral, em conjunto com a Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO) divulgaram uma nota nesta quinta-feira (09) manifestando total repúdio às orientações da Abrahof. Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Minas Gerais (SBEM-MG), Adauto Versiani, a única evidência científica, através de estudos randomizados e controlados é de que a vitamina D é benéfica para a saúde óssea.

“Existem estudos observacionais mostrando que a vitamina D em doses altas poderia estar relacionada a melhora do sistema imunológico, ou seja, quem tem mais doença autoimune geralmente têm menores níveis de vitamina D. Então, alguns podem inferir que se aumentar a vitamina D se poderia melhorar o tratamento dessas doenças autoimunes, mas isso não tem comprovação científica. Mas não são estudos que mostram que exista uma causa e efeito, porque quando eu dou a vitamina D para esse paciente, eu não melhoro o tratamento do lúpus, da artrite reumatoide”, pondera.

Para Versiani, o estudo italiano citado ainda não foi publicado em nenhuma revista científica, e não teve disponibilizados os dados mais relevantes, como o número de pacientes, a idade, os níveis de vitamina D. “Não causa surpresa o achado de níveis estarem mais baixos nessa população porque os mais graves ficam mais tempo internados, quer dizem, tomam menos sol, tem outras doenças relacionadas, como diabetes, obesidade, inflamação, todos esses fatores causam uma queda dos níveis de vitamina D. Então essa associação não determina causalidade”, diz.

O presidente da SBEM-MG também repudia as altas dosagens sugeridas pela Abrahof. “É uma coisa irresponsável p que essa sociedade está fazendo. Eu como médico e membro da Sbem reprovo de maneira veemente qualquer profissional ou associação que tende a se aproveitar desse momento de crise para divulgar notícias ou posicionamentos distorcidos e desprovidos de respaldo científico que podem ter impacto deletério para a sociedade”, reforça.

Segundo Versiani, a alta dose de vitamina d aumenta muito a absorção de cálcio pelo intestino, e isso pode gerar uma hipercalcemia (quando o nível de cálcio no sangue é maior do que o normal), o que dependendo da intensidade pode gerar crise convulsiva, ou alteração do nível de consciência, principalmente em idoso, podendo aumentar o risco de queda e de fratura por queda, de aumentar a chance de calciúria (perda de cálcio pela urina), para tentar corrigir esse excesso de cálcio no sangue e levar a formação de cálculo renal”, enumera.

Leia a nota da SBEM na íntegra:

Nota de Esclarecimentos sobre Vitamina D e Covid-19

Leia a Nota conjunta da SBEM/ABRASSO

Nota de Esclarecimento da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO): Vitamina D e Covid-19

A Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), através do seu Departamento de Metabolismo Ósseo e Mineral, e a Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO) vêm a público manifestar total repudio às recomendações da Associação Brasileira de Harmonização Orofacial (ABRAHOF) para uso de altas doses de colecalciferol (vitamina D3) como estratégia de otimização de imunidade frente ao novo coronavírus (COVID-19).

As possíveis ações extra-esqueléticas da vitamina D são temas de interesse científico. Entretanto, não existe, até o presente momento, nenhuma indicação aprovada para prescrição de suplementação de vitamina D visando efeitos além da saúde óssea.

Recentemente o Jornal italiano, “La Reppublica” publicou uma matéria sobre um estudo realizado na Universidade de Turim, o qual relaciona a hipovitaminose D a Covid-19, uma vez que parte dos pacientes com o vírus apresentavam níveis baixos de 25-hidroxi-vitamina D (25OHD). Baseado neste achado, a reportagem sugere que a vitamina D poderia atuar na prevenção e no tratamento ao COVID-19.

Este estudo ainda não foi publicado em nenhuma revista científica, não tendo sido disponibilizados os dados mais relevantes como número de participantes, idade dos pacientes e os níveis de 25OHD no sangue. Não causa surpresa o achado de níveis séricos mais baixos de 25OHD em pacientes com formas moderadas a graves da COVID-19, já que as comorbidades apresentadas comumente por esses indivíduos (por exemplo, doenças crônicas, doenças inflamatórias, obesidade e diabetes) são primariamente ASSOCIADAS à deficiência de vitamina D. Esta associação NÂO determina causalidade, ou seja, NÃO indica relação de causa x efeito, e NENHUM estudo clínico randomizado já demostrou qualquer benefício do uso de vitamina D para prevenção ou tratamento da Covid-19.

Por fim, a nota da ABRAHOF realiza recomendações completamente infundadas sobre suplementação de Vitamina D na prática clínica, colocando inclusive, de maneira irresponsável, o Posicionamento da SBEM de 2014 sobre esse tema como uma de suas referências. Altas doses de colecalciferol, como as 600.000 unidades indicadas pela ABRAHOF como dose de ataque, são sabidamente deletérias ao esqueleto, promovendo aumento da reabsorção óssea e do risco de quedas e fraturas. Além disso, essas doses excessivas podem agudamente desencadear hipercalcemia e hipercalciúria, com consequentes riscos de insuficiência renal, crises convulsivas e morte.

Dessa forma, reforçando o compromisso da SBEM e da ABRASSO com a divulgação de informações corretas, relevantes e com respaldo científico, reprovamos de maneira veemente qualquer profissional ou associação que tente se aproveitar deste momento de crise para divulgar notícias ou posicionamentos distorcidos, desprovidos de respaldo científico e com possível impacto deletério para a saúde da população brasileira.

 

Rio de Janeiro, 08 de abril de 2020

 

Dr. Miguel Madeira

Presidente do Departamento de Metabolismo Ósseo e Mineral da SBEM

 

Dr. Bruno Ferraz-de-Souza

Diretor Científico ABRASSO       

 

Dr. Rodrigo O. Moreira

Presidente SBEM           

 

Dr. Charlles Heldan de Moura Castro

Presidente ABRASSO

 

Leia a nota da Abrahof, na íntegra:

RECOMENDAÇÃO DA ABRAHOF PARA OTIMIZAR A IMUNIDADE FRENTE AO COVID-19

A ABRAHOF – Associação Brasileira de Harmonização Orofacial vem por meio deste, informar a seus associados e a sociedade, sobre doses recomendáveis de Vitamina D3 (Colecalciferol) para a prevenção e manutenção da saúde orofacial e geral.

1- Considerando que a hipovitaminose D é um problema de saúde mundial e o Brasil está inserido nesse contexto;

2- Considerando ser observada alta prevalência de hipovitaminose D em diversas faixas etárias da população brasileira, e, especialmente nos idosos;

3- Considerando os profissionais da saúde devido ao grande risco de contaminação no exercício da profissão, e para aqueles que forem convocados, ou que de forma voluntaria estão ou irão atuar na frente de enfrentamento à pandemia do coronavirus;

4- Considerando os inúmeros artigos científicos comprovando os benefícios da vitamina D para a imunidade inata e adaptativa na odontologia e na saúde geral;

5- Considerando serem seguras as doses fisiológicas de 10.000 UI ou 250 mcg diárias (Dose NOAEL – No Observed Adverse Effects Level 10.000UI/dia) com grande margem de segurança de até 30.000 UI ou 750 mcg /dia;

6- Considerando o último artigo publicado na Itália onde descobriu-se que os pacientes que foram a óbito pela infecção do COVID – 19, possuíam baixas doses de vitamina D;

7- Considerando recente publicação de artigo científico indicando a suplementação da Vitamina D com o potencial de reduzir a incidência, a severidade e o risco de morte por influenza, pneumonia e covid 19.

RECOMENDAMOS à Sociedade:

O uso de 10.000 Unidades Internacionais, ou 250 mcg, de Vitamina D3 ao dia, sendo essa dose considerada fisiológica e benéfica para população neste momento.

RECOMENDAMOS aos Profissionais de Saúde expostos ao Vírus:

O uso de 600.000 Unidades Internacionais, ou 15 mg, de Vitamina D3 como dose de ataque e posterior manutenção com 10.000 Unidades Internacionais ao dia.

Para ambas as recomendações indicamos após quatro a seis meses a dosagem sanguínea de 25(OH) vitamina D para que seja monitorada pelo seu Médico, Cirurgião-dentista ou Nutricionista.

As suplementações não impedem o contágio com o vírus, portanto todas as orientações dadas pelo ministério da saúde devem ser seguidas para redução do mesmo, entretanto o que define a gravidade da doença após o contágio é a capacidade do organismo reagir a ela através de um sistema imunológico competente.

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Fuente: OTempo